sexta-feira, 19 de março de 2010

Write me down

Write me down
a poem, a leaf, a song
Lift me, travel me around
scent, sense, wisdom
wishbone, a tale
Sail my ship along
sandstorms and blaze
ice cold and rain
Land me
where your body belongs

Por causa do telhado

Por causa do telhado
não vejo o céu
que te esquece
- eu não!
O céu aparece
com ele tua visão
Amazônia ou Sudeste
gosto ou retidão?
Lobo-guará, jacaré-tinga
Av. Jacutinga, av. Rouxinol
meu lugar no mundo
de você estar

quinta-feira, 11 de março de 2010

Trem das cores

Marc Chagall - Printemps au pré


"a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa." RM Rilke, Cartas a um Jovem Poeta




D(#5) era assim como se ouvia: leve, lindo, sorridente, enriquecia qualquer melodia e a ela acrescentava a possibilidade de múltiplos caminhos. Pra onde? Nunca seria possível prever! E essa era a graça. O c a m i n h o! Porque a música, com ele, sempre seria bela. Sedutor. Como não seria?

A/C# era radiante! Um som decidido, olhar de menina, fragilidade tonal... Aliás, qual o tom de A/C#? Como saber? Com ela, a harmonia ganhava cores e sabores sutis. Exalava paixão libertária e generosa por onde passava, inspirava a deuses e mortais com seu canto.

E assim, no trem das cores, se esbarraram. O encanto pelo contorno da imagem, o rítmo frenético e a dança esfuziante foi imediato. Sem saber o caminho, suas sombras se encontraram, dançaram entrelaçadas, perpassadas, transpassadas. Neste espaço de penumbra, tudo era possível, não havia avesso nem restrições, o balanço e as posições no rítmo do prazer, ela agia de acordo com o desejo dele e vice-versa. A música, cada vez mais encorpada, por vezes aparentava uma quantidade cada vez mais infinita de notas, mas na essência se sabia que a riqueza se encontrava na plenitude alcançada com simplicidade incrivelmente maior.

Na dança das sombras, pouco e muito se percebe de D(#5) e A/C#. Um dia, do trem das cores escapam. Vão compor outros sons. Sons que rodam mais, menos, circunstanciais, confortáveis, adequados, como lamentos... Poucos como uma obra de arte.

E, ao reconhecer uma obra de arte, nos embriagamos de toda a penumbra dos sons e cores porque nossa melhor música a ela abraça. Assim voltamos a encontrar nossas sombras entrelaçadas naquela dança que trazia inveja aos deuses e ruborizava qualquer mortal.

Com esta sombra de composição mágica e existência misteriosa, a vida passa sim. Mas muuuuuito melhor!

sábado, 6 de março de 2010

Tempo de encanto - In my life

"In my life I love you more"
Lennon & McCartney
O erro dele foi pensar que ainda teria muito tempo para encontrar um amor maior
O erro dela foi deixar de esquecer que nasceu antes do tempo



Onde fica guardado o tempo presente?
Onde escondemos o tempo ausente?
Como nos proteger do tempo distante porvir que sempre nos bate à porta?
o tempo de desejo quase incontrolável
de vontade de te enlaçar, desvendar, fundir
na presente ausência
Como superar o descompasso do tempo vivido?
E não se render ao espanto pelo pouco tempo de convivio frente à impressão da eternidade na intimidade.
A fusão da essência num instante
Em que somos senhores do tempo
Tento lá reencontrar o tempo, aquele tempo absolutamente encantado.
Te procuro tanto...
corpos semelhantes, mentes brilhantes,
mas a essência... não roda comigo.
E se perde no tempo
Presa naquele canto do tempo, a razão me puxa para o tempo presente
Já não sei mais o que esperar, o que deliberar
Aguardo a resposta do tempo

Querido super hero

Querido super hero
Se não vieres me buscar
Irei ter contigo
Ter muitas flores, cristais e brincos
Festas e afagos
Beijos acordados
Acordes de violão
Bailarinas suspensas
Ventos de outono
Sem rumo e sem dono

quarta-feira, 3 de março de 2010

Joker

Seria a vida uma grande piada?
Rir da seriedade
Encarar o ridículo com respeito
Afinal, há o que se respeitar?
Se tudo sempre termina
e quando menos se espera

Me entrego então nos teus braços
ilimitados
atemporais
eternos
sem cobranças nem neuroses
sem nada esperar
sem nada a oferecer
além do momento

Nada quero construir
nem relação, nem futuro
sem tecer ou maquinar
só quero os teus braços
teus lábios, o amasso
as pernas que se confundem
na loucura do desejo
e, sem pestanejar
nus e melados
me esfrega, te penetro
à força, com força
que meu corpo se dissolva no teu

Não quero mais corpo,
nem espírito
Só destila meu desejo,
a essência
a única força
que escapa e move

...a grande piada

segunda-feira, 1 de março de 2010

Lisonja

"A lisonja torna impotente e cego aquele a quem se dirige."
M Foucault

A era apaixonado por B. E como não seria?
B era o mais inteligente, o mais bonito, generoso, de uma elegância...

E A?
Ah... A sonhava... Sonhava que um dia seria tudo para B, assim como B fazia do seu mundo muito melhor! O mundo com B era colorido, sentia-se flutuar na brisa fresca constante. Nada daquele sol escaldante sufocante, ou da chuva que gelava a alma.

Assim, sempre que B aparecia, A sorria e trazia à tona todo aquele mundo de sonhos. B achava tudo aquilo de uma generosidade doce, ficava comovido com tanta atenção. E A continuava a esbanjar material digno para a construção de um castelo precioso para B.

B, lisonjeado, assim o fez. Pedra por pedra, suspiro por suspiro, de flor em flor... o castelo montava.

De repente, sem explicação, A se cansou. Ou talvez, B tivesse deixado de lado tudo aquilo que era para... construir castelos. Ou mais: talvez B nunca tivesse sido aquilo tudo por quem A suspirava...
O fato foi que A conheceu C, este sim o mais inteligente, o mais bonito, generoso, elegante que só.

E B?
Está lá, aguardando peças, perdido naquele castelo sombrio inacabado, em que tudo veio e viria somente de A