domingo, 15 de agosto de 2010

Água e óleo

"Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração
e quem irá dizer que não existe razão"
R. Russo


Eu me lembro bem daquele dia, como se fosse um filme. Meu primeiro dia de cursinho, de mau-humor por não ter passado no vestibular. Sento na 2 fileira, vazia, não queria ninguém ao meu lado. O coordenador no palco pedindo silêncio. Entra um cara alto, barba cerrada, calça jeans e batinha indiana, estilo bicho-grilo, e senta na minha frente. Gostei! O coordenador do curso, gigante, desembesta a falar... Não tenho a mínima idéia do que era, só me lembro do pensamento voando que repousava sobre aquela imagem insistentemente fixa ao bicho-grilo à minha frente.
De repente, o coordenador do curso chama o coordenador da área de Biológicas. O bicho-grilo-com-cara-de-músico sobe ao palco... Broxei. Tinha que ser professor?
Era tiete das aulas de biologia. Cada palavra dele era proveniente de um mundo que me instigava a cada dia. Cada gesto, um provável sinal. Ele parecia descansar os olhos sobre mim, mas nunca acreditei - quem era eu nisso tudo? Uma pulguinha entre muuuuuitos.
Mas... os dias foram passando... As dúvidas pertinentes foram chegando... O fim das aulas era sempre uma surpresa: de repente, ele sabia meu nome! de repente, nossos olhares realmente se encontraram!
Ele havia feito medicina, falava alemão, e eu ainda nas aulinhas de inglês... Como poderia dar certo? A cada inquietude minha, vinha uma enxurrada de ansiedade pelo mundo de múltiplas possibilidades... E se eu fizesse a escolha errada? Como deixar de escolher todo o resto, muuuuito mais numeroso? Eu sempre achava que tinha muito mais a perder do que a ganhar. E ele, naquela calma "Vc quer abraçar o mundo com o dedo mínimo?" ou "Relaxa... só a morte não tem volta". Eu suspirava fundo. A poeira assentava. Ele fazia do movimento um mundo estável e viável.
E mesmo com tudo diferente veio meio de repente uma vontade de se ver!!!!! Enxergávamo-nos na penumbra e conversávamos no silêncio. Ainda me lembro do sorriso tímido qdo eu chegava, e a luz no olhar que tudo evidenciava. Mas minha razão não se convencia. Ele era muito mais, já não precisava de mais nada. E eu, eu... de tudo precisava. Nem caminho tinha. Como água e óleo.
Como toda relação decente, nos percebemos estranhos e nos libertamos.
Muito tempo se passou. Mas a razão sempre se ressentia: o que nos aproxima da água ou óleo, se não a própria razão? Que maldita confusão nos arma a razão para nos defendermos da vulnerabilidade do espírito? Até que ponto a razão interfere sem se ressentir?
Eis que... conheço-no na penumbra, no som que determina a frequência cardíaca e o silêncio das palavras. Puro espírito. De colisão em colisão, como partículas em alta entropia, arrebatou-me. Nele ex-sisti e in-sisti melhor. Um acolhimento completo na razão ébria.
Trocamos telefone, depois telefonamos e decidimos nos encontrar.. encontramo-nos e conversamos muito mesmo para tentar nos conhecer. Eu já era médica, gostava do Bandeira e de Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, do Caetano e de Rimbaud. Ele... "a cada inquietude, uma enxurrada de ansiedade pelo mundo de múltiplas possibilidades... e se fizesse a escolha errada?" Um encanto de músico. Tinha a fome de viver que eu enfim resgatara. Como pude deixar a razão se alastrar a tal ponto de desacreditar na... vida?
Parto para o vão das experimentações. A cada passo, uma desconstrução. A insegurança vem de todos os lados. As incertezas, uma certeza. Como Descartes, firmo meu método, mas desta vez à partir da incerteza e não da dúvida. A dúvida pede uma resposta. A incerteza se encerra em si. Como Montaigne, assumo a infinitude do mundo exposto muito maior que minha inchada razão impertinente. Seria demais presunçoso condenar uma mistura como água e óleo - para que se homogeneizar? É preciso ter coragem para enfrentar a vulnerabilidade do espírito. Ao permitir, a razão se perdoa.
E é justamente esta coragem que ele me traz, pela música que emana do seu Ser...
Não sei até quando. Por isso se torna para sempre.
Beijooooo!!!!!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

...recalculating


Acho que esta é a curva da saudade.
F indica a intensidade da maldita.
d o tempo em... aí é o problema: bem que poderia ser em milésimos de segundos! seriam horas... Dias? Cruzes! Nem pensar! OU, se pode ser possível, de unidades variáveis, conforme a vontade da infeliz.

Mas isso é mto tosco. Como se não houvesse interferências. Esta é uma defesa, um pseudocontrole da nossa razão frente ao irascível e ao concupiscente. Algum sinal do objeto causal, o concupiscente manda seu recado e lá se vai o F rumo ao infinito! Alguma suspeita de que o objeto causal esteja em outra, e lá se vai o irascível embananado que sempre empurra o F para o sentido oposto, e vai com tanta coragem que a maldita se direciona novamente ao infinito.

Zonzinha, a razão remonta a curva. Planeja e firma a unidade do tempo estimada. O declínio presumido...

...
...
...

Não está funcionando. Isso já está começando a irritar!

Vou tricotar.

Bah!!!!

Meu desvio, desvario, beco sem saída

Só para saber que passa!
Volta, com outros personagens.
Mas já sei que passa.

"Como tentei te esquecer neste tempo. Tentei te afastar de mim. Tentei acabar com meu tesão. Tentei olhar para outros homens. Você entrou em mim (e como!), penetrou nas minhas entranhas, dissipou pelo meu ser, por minhas células... Sua imagem, emoções, prazer, dor, desespero, calma, sabedoria... O pouco de tudo está impregnado na minha alma e na minha carne. Não sai. Eu também sei que minhas palavras, carinhos, afagos, imagem e paixão adentraram nos seus receptores sensoriais e caminharam por todo o sistema nervoso, aquoso, como bálsamo e unguento para acalmar e suavizar suas feridas abertas. Sem dúvida estamos melhores. Mas ainda não sou capaz de amenizar a dor da interrupção. Fantasio, explico, racionalizo, nego, afasto... E vc não sai de mim. Não saiu em 10 anos, com muito menos. Não sairá mais... Não sei mais o que fazer. Como proceder. E que tempo é esse? Não passa, não passou, o que será dele? Como Florentino Ariza? Não quero morrer na praia. Não faz sentido.

Queria que vc me libertasse. Que fosse um canalha, ou que me dissesse que não me quer mais. Que cortasse o elo. Acho que só assim eu conseguiria prosseguir. Ou não.

Não tenho outra opção. Sou sua. Desde sempre. Para sempre..."


... e depois que passa, fica uma boa lembrança de vida.

sábado, 7 de agosto de 2010

To whom it may concern

To whom it may concern:
(that would be you, my love)

Affection from men
and loves of women
are different
although they might
slide together
and for a while
(in agony, in prayers, in rainbows)
in shivering thighs
in shallow breathing
in hot tubs
and used condoms

Ants, worms and mobs
may have your body
but shall you rest, linger and feast
over mine

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Socorro # 3

http://matematicosmarcovaldos.blogspot.com/2010/08/em-contro-ibuicao-3.html

continuando...

Tinha que passar por cima de muitas vozes que sempre lhe alertavam: "nãofaçaissonãofaçaaquiloOLHAOSMODOSMENINO!!!"

Ah, mas agora era deus, né..
.
Assim foi entrando devagarzinho pé ante pé naquele ambiente estranho mas incrivelmente aconchegante. Embriagado pela música, com uma acústica de ambiente pequeno e almofadado (putz, mas uma escuridão, não?), isolado, e algumas vozinhas beeeeem ao fundo que cantavam em uníssono àquela música. Foi caminhando e o ambiente foi ficando cada vez mais estreito... As paredes se mexiam! Em sintonia, como uma onda... Ah, mas estava tão bom, para que sair de lá? À contragosto, foi saído daquele corredor estreito de paredes macias e ganhou o vácuo!

Cara, quanto espaço!!!

Alguma luminosidade, mas ainda não definia imagem alguma: sombras, algumas cores, como uma pintura impressionista. Mesmo assim, não sentia os pés no chão. E sabe que nem estava mais se importando com isso? Sem chão, sem céu, sem lua, nem sol... e daí? O que o movia era a faminta curiosidade pelo que estava porvir! E a estranha sensação de estar embalado por aquela música... De um modo inusitado, sabia que absorvia TUDO que suas aferências lhe ofereciam. Cores, luz, sombra, sons, aromas, tato... e pouco a pouco tudo ficava mais nítido e tomava forma.

Enfim moldava sua própria tela!

http://autretourdelafolie.blogspot.com/2010/10/em-contro-ibuicao.html

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Socorro

"Socorro, eu não estou sentindo nada. Nem medo, nem calor, nem fogo, Não vai dar mais pra chorar Nem pra rir.
Socorro, alguma alma, mesmo que penada, Me empreste suas penas. Já não sinto amor nem dor, Já não sinto nada.
Socorro, alguém me dê um coração, Que esse já não bate nem apanha. Por favor, uma emoção pequena, Qualquer coisa que se sinta, Tem tantos sentimentos, Deve ter algum que sirva.
Socorro, alguma rua que me dê sentido, Em qualquer cruzamento, Acostamento, encruzilhada, Socorro, eu já não sinto nada."
Alice Ruiz


http://www.matematicosmarcovaldos.blogspot.com/2010/08/conto-ibuicao.html
Idiota perdido nas funções: função-marido, função-pai, função-pagador de contas, função-profissional, função-pentelho... Uma vida em carrossel, em que o dia de amanhã terá exatamente a mesma "função" que o dia anterior, em que se espera o próximo fim de semana que será idêntico ao fim de semana passado. Vida de Natal em Natal. Feriado em feriado. Literalmente engolido pelo tempo implacável. Sempre atrasado, sem tempo para nada, correndo rumo ao mesmo lugar em que agora estava.

E foi naquele cruzamento...

De repente, tudo se passava d e v a g a rrr. O som dourado ao fundo. Um aroma de verbena que inundou o ambiente. De onde vinha? Procura... analisa... olha adiante, onde seu corpo estaria no próximo instante. Para trás, de onde vinha. Não encontrava. Súbito, um calor lhe subiu o corpo, e sentiu ruborizar. Uma redistribuição sanguínea que despertou certas áreas adormecidas há mto, mto tempo. Não mais se reconhecia neste momento. A-funcional. A-temporal. A-tópico. Este aroma lhe fazia levitar e, sem mais sentir o peso da gravidade e a pressão atmosférica, sentiu-se mergulhado no vazio. Sem rumo, sem eira nem beira, indefinido... um nada. Nadica de nada.

Neste momento, poderia se desesperar - "Agora finalmente enlouqueci!" E correr para o carrossel, um conforto de situações previsíveis, como no casamento "até que a morte nos separe".

Entretanto...

Gostou da leveza. Curtiu a falta de pilastras. Afinal sem amarras, ao escapar pela tangente, teria o mundo inteiro a (re)descobrir. Aromas diversos, paisagens inesperadas, o tempo deixava enfim de ser linear (circular)... Decidia a trajetória, a velocidade, enfim senhor do tempo e do espaço!!!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mudança imprevista

Por vezes o medo de que algum acidente gravíssimo nos capture, invade nosso pensamento. Um mal pressentimento, uma intuição esquisita, uma notícia ruim, uma ameaça de que não mais tenhamos o que estamos tendo. Mas sabe que, pensando bem, isso é um bom sinal? No fundo diz que estamos tão bem, com tantos planos, com tanta vontade de vida, que não queremos mudanças.

Como permanecer neste estado? Estado em que o prazer por "não ter" é maior do que o prazer por "ter". E olhar para o que temos, como garantia para suportar uma mudança inesperada: aí, pensamos pequeno, resolvemos passo a passo, cada minivitória uma baita comemoração..

Quero que conste para que eu possa reler qdo necessário!

1. Ao olhar para frente, não pular etapas! Ao olhar para trás, munir-se de uma grande angular para certificar-se de TODA a garantia conquistada.

2. Pensar que, nem sempre, as coisas têm motivo para acontecer. Para que procurar causa para tudo? O acaso existe sim, assim como o que não acontece por acaso. E isso tudo por acaso...

3. Ter ciência de que um grande ensinamento não muda nossas vidas de uma hora para a outra. Talvez as grandes mudanças sejam imperceptíveis. Deslizam. Penetram suavemente pelos nossos poros e alcançam o nosso DNA sem pedir licença, sem confrontos, mimetizam-se ao nosso pensamento vigente e gradativamente vão se modificando.

Algum dia ainda permito, sem saber, sem luta, indefesa, que penetre em mim sem pedir licença, deslizando pelas minhas entranhas, modificando-me gradativamente de modo imperceptível.

De repente, em mim

De repente, em vc

E qdo nos dermos conta, já é tarde demais...
Batalha inglória