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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

FeSTa

Hoje, como toda 5f, foi dia de pós operatório. Dia de tirar o curativo que coloco ao terminar uma cirurgia.

Raramente saímos tristes de uma cirurgia. Procuramos sempre fazer o melhor possível, e geralmente alcançamos um bom resultado ou, um estado melhor do que o pré-cirúrgico. Depois vem o período crítico em que o bom resultado se consolida... ou não.

Enfim, o dia de tirar o curativo é sempre um suspense! Costumo dizer que médico sempre tem um pouco de detetive.

Mas neste trânsito de volta para casa, em especial, estava imaginando como um paciente com descolamento de retina se sente.
1. De uma hora para a outra, flashes de luz no canto da visão, como se passasse um raio de soslaio. 
2. Tuuuudo embaçado. Como se um monte de pontinhos pretos, teias de aranha, cobrinhas, começasse a caminhar à sua frente. Vc pisca, esfrega os olhos, pisca de novo, limpa as lentes do óculos.. e nada muda.
3. Aflito com isso tudo, decide ir dormir - quem sabe tudo passa?
4. Acorda sem uma parte do campo de visão. Como se estivesse fechando a cortina da "janela da alma". 
5. CADA VEZ MAIS!!!!! Até tudo se fechar.

... escuuuuro

E sabe que, de certo modo, já me senti assim? Claro, não neste tipo, mas em outro olhar...

Por vezes chega um clarão que nos chama a atenção mesmo! Como se algo nos beliscasse. Um "ei, tem alguém aí?" Perturba pacas, mas não nos deixa em paz. Cara, aquilo acaba por deixar tudo muito confuso... Coloca em dúvida tudo o que era certo e nítido. Vc caminha pelos mesmos lugares, faz tudo o que está habituado a fazer, mas não tem mais certeza de nada - se é aquilo mesmo que tem que fazer, se é aquele local a que pertence... 
Resolve dormir, quem sabe a zueira passa.
Mas acorda, e a encrenca continua te apertando...
Lugar estranho com gente esquisita
Ameaças, assaltos, agonia, pequenez
A janela da alma vai se fechando mesmo!

... escuuuuro...

Não quero dar uma de salvadora da pátria, no caso cirúrgico.. Mas a carinha dos pacientes qdo tiro o tampão é mais ou menos assim:



As cores vão chegando..
As formas vão aparecendo
E vira uma

FeSTa

Como viver tão pequeno, no escuro, na confusão.. Já passei por isso e tive vontade de me atirar da janela, de TÃO ruim!
Mas a gente precisa se lembrar da imensidão desta vida!!! Poooo.. tanta, mas tanta coisa para se conhecer, para experimentar...

Gente
Pensamentos
Conhecimentos
Fenômenos
LUGARES!!!!!!!

Não quero saber de vida pequena. Quero mais...

FeSTa

Viver GRANDE, esta é a missão. É o mínimo que se pode retribuir para este Universo que nos é ofertado.

Vou para a CHINA!!!! De surpresa!!! UAU! Presente, sem dúvida!



sábado, 14 de julho de 2012

teste para encontrar o olho dominante

Teste:

1. aponte para um ponto distante com os dois olhos abertos. Não precisa ser um alvo. Pode ser a maçaneta da porta.
2. oclua os olhos separadamente sem movimentar o dedo com o qual apontou a maçaneta.
Verá que o seu dedo está em cima da maçaneta com apenas um dos olhos. Com o outro, o dedo está distante da maçaneta.


Para quem é detalhista e preciso, um ser microscópico, com este teste simples já se verifica que o que é visto com o olho direito não coincide com o que é visto com o próprio olho esquerdo. Já se torna um ser dicotômico.

Os detalhistas podem ser microscópicos e dicotômicos qto ao próprio ser.

Imagine só ao envolver o outro!!! Trata-se de uma visão totalmente e insuportavelmente diversa.
Só um ser desmemoriado e macroscópico (que tem uma visão em grande-angular, sem se deter em detalhes) para suportar...

Entretanto... dois seres macroscópicos e desmemoriados correm o risco de não saírem da esfera supra-lunar.

É, nada é perfeito.

sábado, 17 de março de 2012

Eu uso óculos

Hoje estava num lugar pouco nobre enquanto aguardava o parecer técnico sobre a revisão do carro. Assistia a um canal aberto condizente com aquele espaço, em que passava uma reportagem ainda mais sincrônica, de onde extraí a seguinte afirmação:

 "As mulheres cariocas são as mais infiéis no mundo - 44% delas já traíram os parceiros. Seguidas pelas suíças. Particularmente as do Leblon".



Dados colhidos em um "site de relacionamento".

O mais divertido eram os depoimentos. "Ahh... aprendi com os homens" ou "Traí porque fui traída"

Fica aí uma confusão se este comportamento é inerente às mulheres ou se são reativos à traição masculina. Deste modo, pode-se suspeitar que talvez os cariocas sejam também os maiores traidores. Ou os que dão mais bandeira. Ou então, as meninas do Leblon é que usam óculos...

Enfim, toda confusão de opiniões e sentimentos mostram que existe um ponto mais profundo e escondidinho que permitiu tamanha divergência de caminhos. Geralmente, um ponto que causa estranheza e dá um soco no estômago - o medo de encará-lo é tanto, que é melhor deixá-lo onde está.

Entretanto, cada vez mais interesso-me pelos avessos. Tento despir-me das pilastras e fundações que mantém a arquitetura deste edifício que nos foi imposto.

Por que a impossibilidade de se amar mais que uma pessoa?
Acredito que seja difícil sim nos apaixonarmos por mais de uma pessoa, já que este sentimento é ENORME e nos consome. Um relacionamento que se preze, ao meu ver, começa com uma paixão. Mas ela vai embora - e isto é fato até comprovado via neurotransmissores... Mas é tão especial e estarrecedora que imprinta-nos sua exclusividade e efemeridade.

Aí precisamos das garantias racionais e institucionais: "sou só sua (seu) na alegria e na tristeza, até o fim dos meus dias..."

Não é assim, vai...

O amor, aquele do dia a dia, em que respeitamos e admiramos o outro e a presença dele queremos em momentos especiais (na alegria e na tristeza), dormir juntinho, conversar sobre o infinito entrelençóis no escuro do quarto, saber pela mudança do padrão respiratório se o sono já chegou ou não, talvez até seja duradouro sim (pelo menos é o que mostram os neurotransmissores), mas quem disse que é exclusivo?

Quem tem filho sabe. Quando esperamos o segundo, achamos IMPOSSÍVEL amá-lo tanto quanto o primogênito. E vivenciamos. O amor não é o mesmo. Afinal, são diferentes (e fazem questão de ser diferentes!!! Já nascem sabendo que precisam ocupar o espaço que o outro não ocupa!). São incomparáveis. Não dá para colocar lado a lado, parear, classificar e ranquear. À partir do momento em que assim se faz, entramos em tilt por comprovar a injustiça com o desfavorecido.

Entre irmãos existe a estranheza, o ciúme. Mas a convivência e a sinceridade garantem a força do afeto, ameniza a situação e permite a convivência - oras, a família!!! O segredo talvez seja o respeito e sinceridade deste amor por ambos. A certeza de que são diferentes, grandiosos e incomparáveis. Por isso não há possibilidade de escolha. E, deste modo, não há desrespeito.

Daí a integridade do afeto - o respeito por sua essência.

Não se pode permitir que a moral desrespeite a existência do amor. Ele não é exclusivo pq é incompleto (ainda bem! O dia em que se acreditar que o amor completa, passa a se acreditar em príncipe encantado e contos de fadas...). E precisa ser respeitado.

Como diz Sade, de novo, somos nossos principais tiranos. Toda a moral imposta para afastar o medo do que machuca, acaba nos corroendo ainda mais. Talvez o maior ensinamento deste diacho desta vida seja confiar em nossa capacidade de tratar a própria ferida. Sem medo, isso fica cada vez mais "fácil".




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

devaneios iniciais sobre a causalidade e a sincronicidade

Estamos acostumados a observar a natureza e, à partir dela, entendermos o mundo. Portanto, há certos fatos que são causas de outros. Por exemplo, uma coisa queima com o fogo. Congela com a baixa temperatura. Com a água, molha.

Causa... e efeito.

 Como nossa primeira aventura racional, as criancinhas entram naquela fase pentelha do "porque".
"Por que queimou?" "Porque pegou fogo." e instantaneamente passa para níveis que por vezes até nos confundem.

Confundem... pq a relação entre a causa e o efeito em alguns casos é duvidosa.

Mas temos uma mania de enfiar a causalidade em tudo, e sossegamos.
Assim, por que me resfriei? Porque peguei friagem.
Por que o grau da miopia aumentou? Porque não usei o óculos direito.
Por que minha boca entortou? Porque peguei o vento de lado.

Por mais avançadas as pesquisas científicas, sempre existe uma margem de incerteza na validade do complexo causa-efeito em determinadas instâncias. Principalmente se relacionados à estatística.

Aí entra Jung. Se, em uma sala, uma pessoa estiver tirando cartas do baralho e se, em outra, outra pessoa estiver com uma imagem de uma carta na psique, as duas imagens coincidem com maior freqüencia do que é estatísticamente provável.
1. O inconsciente é um domínio de objetos (complexos e imagens arquétipas - fantasia e padrão de comportamento universal do inconsciente coletivo. Portanto, não se pode afirmar que os arquétipos tenham uma natureza puramente psíquica) assim como
2. o mundo real é o domínio de pessoas e coisas.
3. Estes objetos internos do inconsciente afetam a consciência do mesmo modo que as pessoas e coisas.
4. As intuições e pensamentos que surgem do inconsciente, repousam ocasionalmente na superfície do ego (diferente das construções racionais que a consciência adora fazer)
5. Estando os arquétipos no inconsciente, e considerando-no não completamente psíquico, conclui-se que situam-se num contínuo com o mundo físico e externo!!!

De novo, os arquétipos situam-se entre o psiquico e o mundo físico!!!

A sincronicidade é definida como uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos (como o evento das cartas do baralho) e, se bem entendi, ligados por arquétipos, cujo evento escapa da relação causal.

Isso tudo para explicar o que não tem explicação. O que ocorre e que vemos como "magia".
Quando "intuimos" e sentimos o que o outro sente.
Quando faz-se uma ligação inexplicável que escapa à racionalidade. E realmente escapa, dado que pertence ao mistério do inconsciente que é ligado sim aos eventos reais.

Como diz M.Stein em "Jung - o mapa da alma": Ingressar no mundo arquetípico de eventos sincronísticos gera a sensação de se estar vivendo na vontade de Deus.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

toctoctoctoctoctoc



Existe o TOC (transtorno obsessivo compulsivo) fisiológico, em que as áreas cerebrais acometidas são as mesmas do distúrbio, porém trata-se de um comportamento dito como "normal".

Este TOC fisiológico é permitido como natural entre as mulheres no período puerperal. A sensação de que o bebê é frágil e sucumbirá a qualquer momento, nos deixa enlouquecidas.
Se ele pára de mamar pq se cansou, colocamos a mão na frente do narizinho para ver se ele está respirando
Se ele está dormindo, colocamos a mão na frente do narizinho para ver se ele está respirando
Se ele está acordado, colocamos a mão na frente do narizinho para ver se ele está respirando
Se ele está sorrindo, colocamos a mão na frente do narizinho para ver se ele está respirando

 
C i R C u l A m o S ao redor do bebê. O comportamento obsessivo vai girando e construindo uma redoma protetora ao seu redor. Aparentemente, foi o grande ganho da nossa espécie que conseguiu fazer com que sobrevivêssemos até hj.

Existem ainda duas situações similares. Uma delas é a paixão. Ahhh, que vício! Com a pior das síndromes de abstinência, já que TODOS ao redor hipervalorizam e até acham que o apaixonado é um sortudo - vê se pode! Ainda têm a pachorra de invejá-lo...
Se o cara não responde na hora, achamos que o cara está em outra
Se o cara foi fazer supermercado e não está em casa, achamos que o cara está em outra
Se o cara pára para ler um livro, achamos que o cara está em outra
Se o cara não olha nos nossos olhos, achamos que o cara está em outra

C i R C u l A m o S ao redor do amor. A gente se mata, dilacera, rumina, acaba com o nosso tempo útil para construir uma armadura protetora em torno desta bomba tão frágil... Pq parece que a qualquer minuto pode explodir. E se explodir... só mortos e feridos, ninguém se salva!!!

E a última das situações, o luto. PUTA dor!!!. Coletamos lembranças, fotografias, papeizinhos, palavras, poemas, recados, sons, músicas, cheiros... Por evitá-los, neles mergulhamos. Um redemoinho do qual não conseguimos escapar!!! Gira, gira, em torno daquele ponto maaaaaaiiisss profundo, e que está se afundando e insistimos em rodeá-lo. Uma força incontrolável... Putz, mas se está afundando, por que mergulhamos?
Pq foi bom. Pq a ele nos apegamos demais. E pq insistimos em alimentá-lo para que sobreviva...


AINDA bem que a medicina avança! A ressonância magnética, os neurotransmissores, isso tudo que comprova o TOC fisiológico e dele consegue, quando convém, nos tirar...

... e viva a medicina!!!!!


     

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Caminhos da medicina

Hoje estava no hospital, conversando com um amigo radiologista. Como as coisas podem mudar em tão pouco tempo? Quando acabamos a graduação, a radiologia era uma das especialidades mais procuradas, profissão do futuro mesmo!

Pretensão achar que o futuro segue nossa tendência...

Foi chamado para trabalhar num grande serviço de diagnósticos laboratoriais e de imagem. Seu discurso quanto a exercer uma boa medicina foi imediatamente cortado: "Não estamos interessados em trabalhar com bons médicos. As pesquisas e os dados estatísticos mostram que 85% dos exames realizados, são normais. Portanto, mesmo se alguma alteração não for detectada, ainda acertamos em 85%. Você está aqui para cuidar desses 15% que não são normais".

Afinal, que conta é essa?

Que diabo de crença em dados estatísticos é esta que nos faz sossegar com uma porcentagem de 85% de acerto? De que isso vale se o resultado não corresponde à saúde ou doença do paciente?

Só com isso, a cabeça já dá nó.

Entretanto... Talvez o terreno movediço ainda esteja mais embaixo.

Como pode um exame auxiliar, supostamente solicitado quando o indivíduo está doente, estar normal na maioria das vezes?
Ou o paciente não está doente
Ou o exame não foi solicitado por um motivo justo.

E, por outro lado, como podem os médicos e os próprios pacientes exigirem tantos exames e neles confiarem mais do que aos próprios sinais e sintomas físicos? O viés não é só da informação ou da interpretação sobre a informação, mas do próprio modo como a informação foi obtida.

...
...
...

Como se pode acreditar mais na explicação do fato do que no próprio fato?

...
...
...

???

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Receita de bolo II

Médico é doido para seguir receita de bolo. Principalmente para aquelas doenças de diagnóstico e tratamento incerto. Portanto, procura se estabelecer critérios diagnósticos minor, medium, major - como se fossem todos os sinais, sintomas e exames laboratoriais que os doentes apresentam, classificados de acordo com sua frequência nos quadros graves. Como o diagnóstico é multifatorial, o tratamento ídem.

Assim, há os famosos guidelines (receita de bolo):
Diagnóstico: 1 critério major e 3 medium, 2 medium e 3 minor, ou ainda 2 major
Tratamento: droga x associada à y por 1 mês. Se o resultado não for satisfatório, acrescenta-se a droga z.
Follow-up, controla-se com exames séricos que verificam a função renal, hepática, RX de tórax e hemograma. À qualquer alteração, suspender a droga x e acrescentar a z.
O critério de melhora? Cruzes! Se a dor era de 4 cruzes em 4, considera-se melhora se passa a 3 cruzes em 4 ou menos.

Agora sim! Fica fáaaaacil! O paciente melhora de 4 cruzes para 3: ueba! Sou foda! Fiz o diagnóstico e estou obtendo resultados! Aí... no segundo mês, volta para 4 cruzes: ué? Como? O protocolo resultou de todo uma metanálise dos trabalhos prospectivos randomizados duplo-cego (medicina baseada em evidências. Eita nome cartesiano!)! Isso quando se resolve parar para pensar um pouquinho... Se não, volta-se para a receita de bolo e se associa a droga z...

Será que ainda estamos no século XVII? Trabalha-se em cima de uma representação, que é a doença. Será que todos os indivíduos manifestam a doença do mesmo modo? Ou, todos sentem a mesma dor? O corpo saudável, incansável, NUNCA apresenta um desvio esporádico? Ou, o coração nunca apresenta uma extrassístole? E o doente? Quanto de variabilidade pode ser considerada "normal"? Os estudos descolam as alterações das particularidades do indivíduo. As doenças, seus diagnósticos e tratamentos, são construídas racionalmente e estatisticamente, pelo médico.

Falta liga. Falta reposicionar o pensamento no doente, talvez. Falta coragem para assumir a responsabilidade pela cura ou não. Pensar passo a passo. Critério por critério. E não se esconder sob os protocolos.
Se o bolo desandou, a responsabilidade é sua por ter escolhido as ferramentas inadequadas, desde a própria receita até à última cerejinha que resolveu colocar no centro.

domingo, 22 de agosto de 2010

Evidências

Ainda de madrugada, uma cólica no baixo ventre... Resgatava meu sonho e dormia mais um pouco. Mas a danada insistia em me acordar. Relutava, fingia que não existia, e voltava a dormir. Qdo o sol bateu na janela do meu quarto, já não tinha pq continuar a dormir, resolvi prestar atenção na dor. Aos poucos, localizou-se na fossa ilíaca direita. Liguei para minha amiga: "onde fica o apêndice mesmo? Lado direito ou esquerdo?" Assim que obtive a resposta, decidi: hospital!

Pronto atendimento é briga de foice no escuro. Os médicos atendem pela ordem, mas não têm a menor idéia da gravidade dos pacientes que estão aguardando. E como atender rápido quem não tem nenhuma doença grave, mas é um doente grave? Existe dor maior que a própria?

Enfim, assim que o plantonista me examina, faz o diagnóstico clínico: dor localizada em fossa ilíaca direita, sinal de descompressão brusca positivo, mas... afebril. Pediu exames: hemograma, coagulograma, urina I, USG abdominal. Medicou-me com um sorinho e buscopan composto. Não tinha vaga nos leitos, logo, fiquei na salinha de medicação. Não dei uma de médica pentelha no lugar errado, resolvi ser o que eu era: doente. E obedeci. Foram 4 horas de espera, até que vieram me buscar para fazer o exame de imagem.

O ultrassonografista pesquisou, pesquisou... sabe que eu já estava duvidando do que eu tinha? Parecia que nem mais sentia dor... Estava com vergonha por ter somatizado uma doença. Será que eu estava carente e arrumei todo aquele forrobodó? Como a medicina de hoje é trabalhada por imagens: fotografias macro e microscópicas e suas quantificações. Perguntaram-me "de zero a 10, qual a nota que dá para a sua dor?". Cara, como vou saber? Estão sempre em busca de evidências. Enfim, o ultrassonografista encontrou meu apêndice com sinais discretos de inflamação. Sabe que comemorei? Pode uma coisa dessa? Comemorei por ter feito o diagnóstico - e não seria bem melhor não ter nada? Uma mané mesmo...
"A clínica é soberana" - jargão dito pelo ultrassonografista depois... que encontrou a evidência.

Volto ao P.A. e, na falta de leito, deixam-me ao lado da sala dos médicos quando escuto: "Ah, então é apendicite mesmo?" Aí fui promovida e encontraram rapidinho uma salinha para que eu sofresse minha real dor - antes, a dor era mera representação...

Depois... a equipe certa de cirurgiões, da minha escola - e como é boa esta evidência! Cirurgia lisa, gente boa na sala, opiáceos, estava em outro mundo, totalmente entregue...

Fazer o que frente ao inevitável? O que mais piora o prognóstico é a negação, achar que vai passar sozinho, que vai sumir, que vai desistir de vc... Vamos às evidências! Temos é que agarrar a ruinheira com as unhas e, com um bisturi, fazer a incisão com as mãos firmes, cauterizar o que sangra, e extirpar o que não mais lhe pertence. O que faz mal. Antes que ganhe o corpo todo.