domingo, 30 de outubro de 2011

Belo filme


Um dia me disseram que um bom relacionamento só é possível com alguém que consiga terminar bem.

Como terminar bem? Se um dia foi tanto, grandioso, que conseguiu com a ternura e a leveza, derrubar todos os pilares de uma arquitetura com a qual estava habituada já no meu DNA...

Teus lábios aqueciam meu corpo,
dissolviam-se as crostas...
as camadas de tinta ilusória
os remendos grosseiros postos para continuar...

Que penetrasse cada vez mais fundo,
e quebrava todas as convenções
as impressões
o mundo pré-fabricado

Deslizava
desvelava
encontrava a alma justa

Assim se fez
assim nos fizemos
Pincelamos nosso mundo
vasto mundo

A cada encontro, uma explosão de som, cores e aromas

e um medo que tudo se acabasse...

muito medo

Mas, sabe,
foram essas pinceladas justas que nos expulsaram daquilo que nos consumia,
aquela enxurrada contra a nossa natureza

Como fogos de artifício,
estraçalharam nosso brilho
Uma dor difícil de aguentar
faltava-me o ar, e até hoje falta.

eu pensei que só restassem cacos

mas cada peça resgatada
consegue ser ainda mais Bela

Querido, acho que estou me redesenhando com traços firmes

e Bons

Um jeito justo de terminar uma bela história

=)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Leaving on a jet plane

Na pressa de arrumar as malas
Acho que deixei o tesão e sonhos que tivemos juntos na tua cama...

Aproveite-os!

Tem pra mais de encarnação =)

Montanha russa

entre o esgoto e o paraíso

não vejo a hora de ver o céu!

- Tem atalho?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Experiência limite

...e continuo a sonhar com ele assim, uma espécie de vento que faz estourar as portas e as janelas... Meu sonho é que ele fosse um explosivo eficaz como uma bomba, e bonito como fogos de artifício.


Michel Foucault - História da Loucura


E quando
experimentamos uma vivência assustadora
que abala as estruturas do senso comum

em que arregalamos os olhos para procurar
entendimento onde não há

aquele ponto mais próximo do invivível...
... do insuportável

aquela que nos impede de ser
... nós mesmos

aquela que nos ultrapassa, deixa para trás
aquele que conduzia a sinfonia

aquela em que perdemos a identidade
... dissolvidos, dessubjetivados, desestruturados

expõe e desmonta nossas ferramentas

o limite,
a ponta da experiência que se faz abismo

a força explosiva
como operadora
da nossa reinvenção,
do pensamento
do mundo

Aí sim vai de encontro ao sol!



A paixão







è un venticello,
un'auretta assai gentile
che insensibile, sottile,
leggermente, dolcemente
incomincia,
incomincia a sussurrar


Começa pequenininho. Pura diversão. Gostosa lembrança que nos chega quando permitimos - num momento em que, cansados das tarefas, suspiramos e desviamos o olhar para o além. Confortável, não atrapalha nossos afazeres, por vezes pincela o cenário com umas cores bacanas!





Piano piano, terra terra,
sottovoce, sibilando,
va scorrendo, va scorrendo
va ronzando, va ronzando;
nell'orecchie della gente
s'introduce,
s'introduce destramente,
e le teste ed i cervelli,
e le teste ed i cervelli fa stordire,
fa stordire e fa gonfiar.


Pouco a pouco, traiçoeiro, vai se infiltrando nos nossos giros cerebrais, invade e cava devagarzinho o estômago, atiça o sistema adrenérgico quando toca o telefone... e viciamos naquela endorfina que vem depois...

Mas tudo bem! O autocontrole é tanto e tão confiável que restringimos sua decretada importância ao espaço adequado. Não informamos aos pares... Não aparece no facebook... Não colamos na nossa testa! Para o mundo pragmático, NÃO EXISTE!!! Fácil fácil... se for negado, nem interfere na nossa vida.





Dalla bocca fuori uscendo
lo schiamazzo va crescendo
prende forza a poco a poco,
vola già di loco in loco;
sembra il tuono, la tempesta
che nel sen della foresta
va fischiando,
brontolando, e ti fa d'orror gelar.


Com a troca de seivas, saliva, e a sede de desvendar cada vez mais o outro, já que cada verso é o mundo, e cada estrofe uma sinfonia, não suporta o espaço devido. Uma tempestade que grita, exigindo mais e mais espaço.

E amedronta... Apavora!!!

Tem-se a sensação de que ainda está sob controle porque não permitimos (uhh, doce ilusão) que invada os outros espaços: status de relacionamento: SOLTEIRA!!!!!

Mas pouco a pouco...

Percebemos que estamos vivendo pela metade. Metade no espaço social, e metade no espaço que nos abduz, aquele dos extraterrestres, lunáticos mesmo.





Alla fin trabocca e scoppia,
si propaga, si raddoppia
e produce un'esplosione
come un colpo di cannone,
come un colpo di cannone.
Un tremuoto, un temporale,
Un tumulto generale
che fa l'aria rimbombar!
E il meschino calunniato,
avvilito, calpestato,
sotto il pubblico flagello
per gran sorte ha crepar.


Este amor poderoso e exigente (quem dera fosse uma calúnia...) não dá aviso prévio antes de explodir. Se não somos perspicazes o suficiente para abrir caminho para que ganhe corpo naturalmente... Transborda e estoura!!!

Ficamos em frangalhos... Espalhados para tudo que é lado. Parte aqui, parte acolá...
Todas as defesas: restringir seu lugarzinho, para-quedas, plano B, banco de reservas...

Cadê mesmo?

Mas tá tudo bem! A gente transforma em arte - a vida, afinal. E prosseguimos nos transformando, tornando-nos uma grande obra de arte...


P.S. Lembrei-me desta ária do Il barbieri di Siviglia - La calunnia è un venticello. O caminho é muito semelhante. Talvez por conta do medo que se ampara na razão.














sexta-feira, 21 de outubro de 2011

De Rilke para Lou Salomé

   

     "Ao novo medo sucede uma nova felicidade. Sempre foi assim.
      Apenas é necessário que vcs aprendam a crer; é preciso que se tornem piedosos em um sentido novo. Os anseios precisam estar acima de vcs, onde quer que se encontrem. Imprescindível é que os agarrem com ambas as mãos e os exponham ao sol, onde é maior a sua bem-aventurança; porque estes anseios precisam recuperar a saúde.
     Se ainda existirem temores ou dúvidas em suas almas, rejeitem ambos e não os levem em conta. Mesmo que avultem em seus caminhos: haverá sempre montanhas erguendo-se diante do passado.
     Como admirei em ti, minha querida, esta confiança despreocupada em todas as coisas, esta bondade que não conhece o medo. Agora esta confiança também vem se apoderando de mim, por um caminho diferente. Sou como uma criança que estava suspensa à beira de um precipício. Sua aflição e seu sofrimento se aliviam quando a mãe a segura com força amorosa e tranquila, mesmo que o abismo ainda esteja sob os seus pés e os espinhos se interponham entre sua face e o regaço materno. Ela sente-se amparada, erguida - e está confiante.
     Como anteriormente falei de Giuliano dei Medici: virá a época em que ninguém será vencido pelo destino, antes de ter produzido frutos. Virão os dias da colheita. E cada um ouvirá as canções com que presenteou a amada despertando nos lábios da mãe que acalentará o seu filho. Virão os dias da colheita.
     (...)
     Ah, se eu pudesse dizer a todos que época será esta! Magoa-me tanto que muitos vivam sem alegria e sem esperança. Gostaria de ter uma voz como a do mar e ser, ao mesmo tempo, uma montanha que se ergue na claridade quando rompe o sol: para que eu pudesse despertar a todos com a luz, sobrepujá-los e chamá-los.
     (...)
     Lou, ao ler estas linhas, sinto-as como se fossem um hino. E anseio o momento em que as lerei na tua presença; aí elas receberão a melodia.
     Preciso apenas de forças. Todo o resto, eu sei, está em mim, para que eu me torne um pregador. Não tenho a intenção de peregrinar por todos os países, tentando difundir o meu ensinamento. Aliás, não desejo que ele se solidifique e petrifique em uma doutrina. Quero vivê-lo. Desejo apenas, querida, peregrinar por tua alma, percorrê-la até o âmago, até o lugar onde ela se torna um templo. E lá quero erguer a minha nostalgia como uma custódia, que há de se elevar até a tua magnificência. Este é o meu desejo.
     Tu me viste sofrer, e tu me consolaste. Sobre o teu consolo construirei a minha igreja, na qual a alegria terá altares luminosos.
     Talvez eu ainda não seja predestinado a ver o verão que, como sei, há de vir. Talvez eu próprio possua apenas a força da primavera, apesar de tudo. Mas tenho a coragem de ansiar o verão e a fé na felicidade perfeita."
O Diário de Florença - Rainer Maria Rilke

... para "Rilke para Lou Salomé"

Te cuido
... embora sempre se perturbe com meus olhos de Capitú

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Romântica

Ah...
Por vezes ficamos assim, né? Afinal, o que difere as grandes estórias das cotidianas, é o sentido que damos aos fatos.

As pontes floridas entre os fatos casuais.


Deste modo,

"E como escreveu Platão, os andróginos eram seres poderosos, redondos, duas cabeças, quatro braços e quatro pernas, tipo gêmeos siameses. Talvez fosse assim o mundo da plenitude. Talvez monótono, já que não havia angústia... Talvez sem ruído, já que ele se bastava. Talvez sem festas, ruas vazias, fins de semana de parques desertos... Mundo externo monocromático e interno extremamente colorido... Sem graça, muito sem graça.  

O tédio incomodava o grande diretor do filme. Não havia histórias para contar, nem desgraças para vibrar, nem paixões para se invejar. Como Zeus, resolveu partir o andrógino em dois, desmemoriá-los e encaminhá-los ao mundo que conhecemos. Mas a amnésia não era total – se assim o fosse, o novo mundo voltaria ao marasmo, novamente não haveria a falta. Caberia aos órgãos do sentido, e somente a eles, a ‘lembrança’ da presença da outra metade. E a sensação de plenitude só poderia decorrer do preenchimento máximo destas lembranças - ou para alguns desesperados, suficiente. Assim, o caminho pela busca seria longo, cheio de enganos e atropelos e cheio de histórias para contar..."
;)