quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Receita de bolo IV - prometo que é a última

Coração de Gelatina:

Pegue o medo da solidão
forre o fundo da forma
amarre a ponta de um barbante de 2m
preencha com o "anúncio de jornal" até transbordar
amarre a ponta que restou num balão cheio de gás nobre
deixe tomar forma

(torça para que o gás não seja o Helio)

se o balão voar, tá pronto
se não voar... sorte sua!

OBS: "anúncio de jornal": moreno alto, bonito e sensual, carinhoso, bom nível social...

Abaixo a ditadura!

Abaixo a ditadura
dos chavões, dos preconceitos, dos estereótipos, dos moldes
Aonde está o homem sensível (que sente, do meu o corpo, todos os toques e geme e arranha e morde)
Aonde está o homem afetuoso (que me afeta com seu corpo rijo e então eu o beijo e arranho e chuto)
Aonde está o homem querido (por todos os meus poros, por toda pele e mucosas, pelo nariz)
Aonde está o homem ferido, de menino, de superação, de conformes e alto escalão, do (eu te) desejo
Assim escapa a seu destino
Como viver essa paixão
Como não a ter vivido
Assim escaparia a meu destino:
Penélope, de Ulysses (s)

Acabou

"Mudaram as estações
e nada mudou
mas eu sei que alguma coisa aconteceu
tá tudo assim tão diferente
Lembra quando a gente
chegou um dia a acreditar
que tudo era pra sempre
sem saber que o pra sempre,
sempre acaba..."
Renato Russo



Tudo que começa tem fim. A questão é se convencer de que acabou. E qdo acaba, não necessariamente quer se desmerecer o que passou. As coisas simplesmente chegam ao fim, e não nos tempos simultâneos. Talvez até no mesmo tempo, mas convencer-se de que realmente acabou é que não é coincidente. Será que é possível construir ou manter o afeto? Como acreditar que uma coisa que nos arrebata pode ser tão efêmera? Talvez possa. E o nosso "pecado" é tentar mantê-lo com todas as defesas e armas - principalmente o suposto esforço para o outro tbém manter o afeto - não rola!!!!!

Eu me lembro da imagem de Jung do cavaleiro. Qdo estamos montados de costas para o nosso inconsciente, vem a estranheza. Talvez o gde desafio seja entender estes momentos de estranheza, de onde eles vêm. E acho q eles nos avisam qdo terminou.

Outro ponto nevrálgico! As malditas expectativas. Se a expectativa for pretenciosa a realização sempre será migalha e aí dá a sensação de que nem chegou a começar, o vazio é monstruoso. Entretanto, ao nos entregarmos completamente, este pequeno, se despretencioso, se faz absoluto e por isso grandioso. Por vezes, não passa de uma noite. Mas que vale uma encarnação!

A grande arte, talvez... não girar a engrenagem em falso. Nossa! De novo caímos no problema da receita de bolo!
Ai... não aguento mais!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Receita de bolo III



No entendimento, há um saber que se passa além do conhecimento. O conhecimento exposto trata da receita escrita com seus ingredientes, modo de preparo e tal... Ou a receita para ser feliz, ou para consertar um coração partido, ou de como fazer uma cerveja.

Porém, o entendimento vai além. Como se, de algum modo, você se abrisse para acolher todas as outras faces veladas. Todos os sabores que acompanham o conhecimento: a memória, a semelhança, a dessemelhança, os sonhos, os desejos, sensações atemporais e atópicas que convergem no instante do entendimento.

E por incrível que pareça, esta abertura só pode ser possível quando o afeto se desperta. Este sim, inerente a qualquer um, inespecífico e próprio, involuntário ou voluntário, fortúito ou perseguido.

Para isso, não há receita.
E basta.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pena-preconceito

Por vezes o preconceito é sutil. Passa velado, reprimido, assustado.

Para Rousseau, o homem é dotado de um "amor de si", como um instinto de sobrevivência que não o deixa sucumbir frente à qualquer ameaça à vida. Ao se relacionar com o outro, um outro instinto surge: a pitié, ou a piedade. Este, ao ver o outro sofrer, faz o homem se identificar com o que sofre, entende o sofrimento, e quer ajudar - como um instinto de preservação da própria espécie que não deixa o semelhante sucumbir frente à qualquer ameaça à vida.
Entretanto... a pitié apresenta seu avesso: ao mesmo tempo que se identifica ao outro, sente-se um alívio ENORME por não ser o outro. Preserva a individualidade.

Pois bem, no preconceito, há um alívio ENORME por não ser o outro. Mais que isso, evita-se a qualquer preço, quase que sente a própria vida ameaçada.
Entretanto... o preconceito apresenta seu avesso: ao mesmo tempo que fica aliviado pela distância com o outro, se este outro é seu semelhante (alguém da família, algum amigo próximo, etc) sente-se uma pena ENORME na identificação com ele.

Talvez o avesso do preconceito seja a pena.

Experimente. Não tem preconceito? Então imagine se fosse com seu filho...

Receita de bolo II

Médico é doido para seguir receita de bolo. Principalmente para aquelas doenças de diagnóstico e tratamento incerto. Portanto, procura se estabelecer critérios diagnósticos minor, medium, major - como se fossem todos os sinais, sintomas e exames laboratoriais que os doentes apresentam, classificados de acordo com sua frequência nos quadros graves. Como o diagnóstico é multifatorial, o tratamento ídem.

Assim, há os famosos guidelines (receita de bolo):
Diagnóstico: 1 critério major e 3 medium, 2 medium e 3 minor, ou ainda 2 major
Tratamento: droga x associada à y por 1 mês. Se o resultado não for satisfatório, acrescenta-se a droga z.
Follow-up, controla-se com exames séricos que verificam a função renal, hepática, RX de tórax e hemograma. À qualquer alteração, suspender a droga x e acrescentar a z.
O critério de melhora? Cruzes! Se a dor era de 4 cruzes em 4, considera-se melhora se passa a 3 cruzes em 4 ou menos.

Agora sim! Fica fáaaaacil! O paciente melhora de 4 cruzes para 3: ueba! Sou foda! Fiz o diagnóstico e estou obtendo resultados! Aí... no segundo mês, volta para 4 cruzes: ué? Como? O protocolo resultou de todo uma metanálise dos trabalhos prospectivos randomizados duplo-cego (medicina baseada em evidências. Eita nome cartesiano!)! Isso quando se resolve parar para pensar um pouquinho... Se não, volta-se para a receita de bolo e se associa a droga z...

Será que ainda estamos no século XVII? Trabalha-se em cima de uma representação, que é a doença. Será que todos os indivíduos manifestam a doença do mesmo modo? Ou, todos sentem a mesma dor? O corpo saudável, incansável, NUNCA apresenta um desvio esporádico? Ou, o coração nunca apresenta uma extrassístole? E o doente? Quanto de variabilidade pode ser considerada "normal"? Os estudos descolam as alterações das particularidades do indivíduo. As doenças, seus diagnósticos e tratamentos, são construídas racionalmente e estatisticamente, pelo médico.

Falta liga. Falta reposicionar o pensamento no doente, talvez. Falta coragem para assumir a responsabilidade pela cura ou não. Pensar passo a passo. Critério por critério. E não se esconder sob os protocolos.
Se o bolo desandou, a responsabilidade é sua por ter escolhido as ferramentas inadequadas, desde a própria receita até à última cerejinha que resolveu colocar no centro.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ao léu

Este é o nosso ser em potência. Eu, vc, as tantas afinidades de corpo e de alma, o acaso convergente que nos aproximou... Uma obra de arte!

Por vezes escultural e palpável, formas precisas, de textura definida, macia, rugosa, quente, gélida...
Por vezes repleta de cores, traços ora lineares ora difusos, borrões, respingos...
Por vezes sonora, harmoniosa, um rock progressivo, erudita, valsa, jazz, som estranho como um Tom Waits ou um Stravinski

E tenho vontade de conservar, intacta, esta arte em potência. Num cofre, no vácuo, imune ao tempo e espaço.
A saudade abre a porta e revisito-a. Admiro. Respiro o aroma. Emociono-me frente ao resplendor da harmonia.
O tempo me chama, e cuidadosamente a reposiciono em segurança.

Vivo minha vida. Preencho as lacunas e volto a formá-las - ainda bem!
Sei que vive a sua também, do melhor modo possível.

Desconstruímos reconstruímos,
experimentamos,
conhecemos, nos desconhecemos...

Mas, de algum modo, a obra de arte conserva sua força. Por vezes esqueço a porta aberta, e ela só se fortalece. Independente do meu ou do seu tempo e espaço, ela insiste em se fortalecer, alheia ao nosso olhar.

Um dia, de mãos dadas, esta arte nos arrebata...
Alheia ao tempo
no nosso espaço.